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03/11/2019

Empoderamento Feminino – Parte 2

E continuando minha jornada…

Qualquer semelhança com o filme “ Estrelas Além do Tempo” é mera coincidência.

Brigar por banheiros femininos

Imaginem o meu contentamento em estar fazendo um curso pelo qual batalhei por muito tempo, era um sonho. Dos 50 alunos éramos umas 10 corajosas mulheres, diria que isso foi um avanço em uma faculdade basicamente frequentada por homens. Nosso primeiro problema foi encontrar banheiros femininos nos andares, o prédio tinha apenas banheiros para nós no térreo pois ali ficava a secretaria. Tivemos que nos unir e brigar para termos banheiros femininos e formalizamos com a faculdade o nosso pedido que foi atendido somente no próximo semestre, quando as reformas para instalação dos nossos banheiros começaram. Acho que nem a faculdade tinha noção de que as mulheres iam procurar o curso de tecnologia, então não planejaram essa mudança na estrutura do prédio onde íamos ficar.

Naquela época todo quadro de professores era composto por homens e fomos muito bem recebidas por todos. Parte das moças da minha sala formaram um grupo só delas, a outra parte se uniu aos rapazes em grupos mistos. No meu grupo eu era a única mulher e a mais fora da caixa de todos, nem sabia o que era um fluxograma. Dos meus amigos do grupo: Vicente Filus já trabalhava em banco, já tinha feito curso complementar em informática e utilizava o computador em alguns momentos, Marcelo Nappi já tinha iniciado um curso de matemática na USP e Marcelo Stefane tinha um computador TK-85 (fabricação nacional), ambos já sabiam programar em basic e pascal, ou seja, eu estava bem acompanhada. Naquela época, quem sabia alguma linguagem de programação já era um nerd de carteirinha, coisa rara.

Fazendo um paralelo aqui…

“Para aqueles que estiverem lendo esse texto e nasceram na década de 90 em diante, vocês não viveram na época da Política Nacional de Informática que vigorou de 1984 [L7232/84] a 1991 [L8248/91] onde os computadores pessoais comercializados no Brasil eram de produção nacional, o país não abria o mercado para venda de equipamentos importados. As poucas multinacionais que estavam aqui (como IBM) vendiam computadores de grande porte, justamento pelo fato de que não tínhamos fabricação nacional desses equipamentos. Com isso não havia concorrência e garantia-se a produção local. Enquanto isso, lá fora, o DOS da IBM já estava nos PCs desde 1979 e o Windows da Microsoft já estava no mercado desde 1985 ou seja, não tinha mesmo como ter acesso à esses recursos, a menos que alguém conseguisse trazer de fora.”

Meus amigos eram ótimos, me ensinaram muitas coisas que me ajudaram a assimilar as disciplinas muito técnicas. O intervalo das aulas acontecia no centro acadêmico onde boa parte da sala jogava ping pong ou bilhar. Eu acompanhava a turma até que um dia pedi para jogar bilhar com os rapazes. Contei para eles que jogava (isso foi algo que não mencionei no meu primeiro post, o pai de um amiguinha tinha uma mesa e jogávamos muito na época das férias, nessa época eu tinha uns 13, 14 anos) e para surpresa deles, eu era boa jogadora e isso ajudou ainda mais a me aproximar dos rapazes da sala.

Chegou a hora de fazer estágio…

Não me lembro do nome da primeira empresa em que fiz estágio, me lembro apenas que a empresa usava um PC com um software de animação que era utilizado para fazer uma demo do produto que vendiam. Meu estágio era justamente refazer aquela animação. Não me simpatizei muito com o dono da empresa e acho que ele também não ia muito com a minha cara. O funcionário que me ajudava era bem legal e tinha paciência em ensinar qual era o meu trabalho. Acho que fiquei uns 2 meses lá e decidi encerrar o contrato para tentar o sonho grande: trabalhar na IBM. Vamos dizer que a IBM era a Google dos anos 80. Fiz o teste mas não passei por causa do inglês, afinal eu tinha acertado só 1 questão no vestibular da FATEC, mas não ia desistir, resolvi estudar inglês sozinha para melhorar em um futuro teste.

Açúcar União

Na sequência consegui um estágio no Açúcar União juntamente com uma outra aluna da FATEC. Nós fomos as primeiras estagiárias na área de desenvolvimento e fazíamos sucesso pois era um avanço ter mulheres em uma área dominada pelos marmanjos. Nós éramos até que paparicadas e a única “pegadinha” que fizeram para nós foi simular que havia um vírus no nosso login em uma sexta-feira 13, foram bons tempos até que consegui um estágio na IBM (fiz vários testes até conseguir).

O sonho grande: estagiar na IBM

No dia que consegui a vaga vibrei muito, ia estagiar meio período e era sensacional. Participei de um projeto com o João Pedro Perez que na época era Trainee na IBM. Ganhamos a conta da MaKro otimizando rotinas utilizando CSP que era uma proposta da IBM similar ao Cobol. Consegui inclusive ampliar meu estágio para período integral de forma que poderia ter mais chances de ser efetivada. Ai veio a primeira decepção…a IBM não contratava tecnólogos na área que eu estava, para isso eu precisaria ter um tempo de estágio de no mínimo 18 meses (eu tinha 10 e já ia me formar), ou seja, não tinha como participar do programa de Trainee nem como prolongar o estágio. Foi a primeira vez que percebi que uma escolha pode mudar toda uma vida!

Agora, já formada, era encarar o mercado de trabalho que sofria com as mudanças políticas do mandato do Fernando Collor de Melo.

Consegui um emprego em uma consultoria que era parceira da IBM, fique por lá uns 10 meses e vi que alí não tinha futuro para mim. Na sequência consegui um emprego no Banco Nacional e lá minha vida mudou e muitos desafios eu enfrentei. Minha jornada estava apenas começando.

Mas isso fica para o terceiro e último post

Leiam o primeiro post neste neste link: Empoderamento Feminino – Parte 1 –

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